“Linux é melhor do que o Windows e não tem nada a ver com a IA.”
Foi o que me responderam no Threads quando contei que tinha instalado um Linux. Minha resposta: pra dev, né.. pede pra um mero mortal usar Linux pra ver a merda que dá.
Eu não sou dev. E essa troca resume o post inteiro:
Não migrei para o Linux por causa da IA. Consegui migrar por causa dela.
“Migrar” é modo de dizer. Uso três computadores: o desktop do escritório de casa, o notebook do trabalho e um notebook pessoal. Os dois primeiros continuam no Windows. O experimento foi no terceiro: um i3-1215U com 32 GB que foi meu computador de trabalho em 2025 e andava parado. Ele tem dois SSDs. Fiz backup do que precisava guardar, esvaziei um deles e fiz o impensável para mim: instalei um linux (uma versão específica, chamada omarchy).
E puta que pariu, que coisa bonita.

área de trabalho do omarchy
Tudo parece ter sido pensado junto. As cores, as janelas, o terminal, os temas. Você entra e dá vontade de mexer. Conecta suas coisas, explora os menus e começa a imaginar o que vai fazer ali.
Eu sempre quis usar Linux
A vontade é antiga, e não é sobre “não pagar nada”. É sobre escolher: o que instalar, o que remover, quais serviços usar, qual IA eu quero no meu computador. Reduzir dependência e reduzir a chatice de ofertas / obrigações.

O Windows vai na direção contrária. Copilot, OneDrive, serviços pré-instalados, e sempre alguma fricção para desligar o que eu não pedi. Existe um gênero inteiro de conteúdo sobre “desbostificar” o Windows. Muita gente nem quer largar o Windows; só quer o controle de volta.
No Linux a sensação é a inversa: em vez de remover o que alguém decidiu colocar na minha máquina, eu começo escolhendo o que quero colocar nela.
Tem também o terminal. No Windows ele sempre me pareceu uma camada adicionada ao sistema, não parte dele. E toda hora eu esbarro em projeto open source, ferramenta de linha de comando e tutorial que foram pensados primeiro para Linux e macOS. Já no Windows, quase sempre tem uma etapa extra de adaptação.
E teve o empurrão final. Esse notebook era um Windows 10 honesto, com 8gb de ram. Eis que chegou o tal Windows 11 e ele parecia que tinha contraído dengue, cada vez mais lento. Só para fazer o Windows funcionar e algumas abinhas do chrome.. já engargalava. Fiz upgrade para 32gb: melhorou bastante, mas ficou a impressão de que eu estava pagando em memória por coisa que eu não escolhi rodar.
Só que vontade nunca foi o problema. Eu já tinha me arriscado usando o Raspberry PI e terminais para VPS. A experiência era sempre.. truncada. Linux, pra mim, pedia um nível técnico que eu não queria dedicar ao meu computador pessoal.
O que a IA mudou
Antes, um problema simples no Linux era assim:
Não sei fazer algo
↓ Stack Overflow / Reddit / documentação
↓ descobrir o comando
↓ entender os parâmetros
↓ executar
↓ erro
↓ pesquisar o erro
↓ tentar de novo
Agora pode ser assim:
"Quero instalar / configurar / fazer X"
↓ agente
↓ entende o sistema
↓ executa os comandos
↓ observa o resultado
↓ corrige o que deu errado
↓ entrega
A IA virou uma camada de tradução entre a minha intenção e o sistema operacional.
E o que mais me chamou atenção foi poder pedir pro Claudinho / Codex mexer no sistema para mim. Instalar um programa. Ajustar uma configuração. Mudar a aparência. Você descreve o que quer e o agente executa as mudanças no computador.
Esse Linux “Agêntico” pode finalmente democratizar mais o uso do Linux.
Será que a minha longa dependência 💸 do Windows está chegando ao fim?
Um Linux que já chega bonito
Se você nunca usou Linux, uma distribuição é um pacote: o sistema, os programas e as escolhas de como tudo vai funcionar junto.
O Omarchy é um projeto liderado pelo DHH, o criador do Ruby on Rails. Usa Arch Linux como base e Hyprland para organizar as janelas. Traduzindo para o que interessa aqui: ele já chega com uma maneira própria de usar o computador, bastante apoiada em atalhos de teclado e altamente integrada a IA.
Tem um valor enorme em abrir um sistema e achar aquilo agradável. Dá vontade de aprender o atalho, testar outro tema, descobrir pra que serve aquele menu. A beleza ajuda a atravessar a parte em que você ainda está meio perdido.
Minha experiência até aqui tem sido essa: um computador gostoso de explorar, cheio de coisa que eu quero testar.
Claude Code no Omarchy: pedir em vez de configurar
Nos últimos posts, mostrei como uso IA para trabalhar com os arquivos do meu segundo cérebro. Dou acesso à pasta e peço para consultar, organizar e conectar as minhas notas.
Aqui, essa possibilidade se estende às configurações do computador.
O Claude Code é um agente que pode ler arquivos, alterá-los e executar comandos, conforme as permissões que recebe. No Omarchy, há integração para usar esse tipo de ferramenta e instruções específicas para ajudar o agente a personalizar o sistema. Você ainda precisa configurar o acesso à IA escolhida: mas é o fluxo padrão > “logar com minha assinatura” > próximo > próximo > concluído.
Pra quem está começando, isso abre uma possibilidade muito boa: conseguir descrever o que quer fazer antes de saber o nome de cada peça envolvida.
Um pedido pode começar assim:
Quero mudar o papel de parede do computador. Quais que tem?
O que você pode fazer é virtualmente ilimitado. Por exemplo:
Quero jogar, instala a Steam pra mim.

Mas só como spoiler, até Silksong eu joguei:

🎬 No vídeo, fui um passo além: pedi pro Codex instalar o n8n auto-hospedado, com Docker, num sistema que não tinha nem o Docker. Deu erro no meio, eu colei o erro pra ele e ele corrigiu.
É perfeito? Claro que não.
Eu sou super propenso a testar as coisas que vejo na internet.
Repositórios legais do github, novos modelos de IA, coisas que estão atraindo um pedaço grande do meu feed.
Um tema em alta atualmente no meu feed é o Jev e sua alternativa open source Laya. Eu pedi pro claudinho tentar rodar no terminal do meu Omarchy para ver se a instalação / uso rolaria de primeira.
Jev e Laya são modelos de IA feitos para tomar decisões. Você dá um contexto e uma pergunta com respostas definidas: - os modelos devolvem uma escolha, - uma pontuação ou uma probabilidadeÉ tipo um classificador.*chamado* > decisão > suporte / financeiro / encerraMas este tema é outro buraco de minhocaFica para um próximo post.
“Ah, mas não dá para fazer isso no windows?”
Tudo dá. Mas rodar algumas coisas envolve: criar um ambiente, instalar bibliotecas específicas, dependências.. e por aí vai. E como o Agente de IA tem acesso ao sistema no Omarchy, você pode delegar isso.
O que me impressionou não foi o resultado. Foi o agente montar o ambiente, rodar, observar e me dizer onde tinha parado. Coisa que antes exigiria entender uma série de detalhes técnicos virou uma conversa orientada a objetivo.
Você continua precisando olhar o resultado. Mas consegue pedir ajuda no mesmo lugar em que a mudança acontece, com o agente consultando os arquivos daquele computador.
Pra quem já usa o Claudão como estagiário, é muito tentador ampliar as atribuições dele 😅
Linux é mais intuitivo que o Windows? Depende de qual
Lá no Threads, veio a tréplica: pra qualquer pessoa, Linux hoje em dia é mais intuitivo do que o Windows. E numa outra conversa, a pergunta “já pode dizer que o Linux é melhor que o Windows?” juntou 60 comentários. O debate está vivo.
Linux é mais intuitivo? Algumas distribuições parecem ser.
O Diolinux, uma das maiores referências brasileiras sobre Linux, publicou uma análise com o título “Omarchy, o Linux que NÃO foi feito para você (e por isso mesmo é genial)”.
Vale ler além do título. O texto aponta uma curva de uso: atalhos, terminal, configurações em texto e manutenção. A equipe relata até uma atualização que quebrou o ambiente durante o teste. Para quem quer um desktop tradicional e pouca surpresa, a recomendação faz sentido.
A análise é de outubro de 2025. Estou contando minhas primeiras impressões em setembro de 2026, com uma proposta que hoje dá bastante destaque aos agentes de IA no próprio site do Omarchy.
Minha hipótese é que a IA amplia o grupo de pessoas que consegue começar por aqui. Foi exatamente nessa curva: atalho, terminal, arquivo de configuração que o agente fez diferença pra mim.
Alguém pode ser iniciante em Linux e já ter prática em pedir tarefas a um agente, conferir o resultado e corrigir o pedido. Essa pessoa chega com uma habilidade que ajuda a lidar com o ambiente novo.
Ainda vai precisar aprender. Ainda pode dar problema. E um agente também pode errar tentando consertar.
Mesmo assim, acho que vale considerar esse perfil quando a gente fala em “iniciante”. Talvez você nunca tenha configurado Linux, mas já esteja acostumado a construir coisas com IA. O Omarchy pode ser uma experiência interessante pra você.
Como instalar o Omarchy: o passo a passo que eu segui
Ter um SSD para essa experiência ajudou muito. Fiz backup, comecei com uma instalação limpa e não precisei levar toda a minha vida digital para lá no primeiro dia.
E o passo a passo não é nenhuma ciência de foguete e tendo dúvida, basta perguntar pro Claude / ChatGPT da sua preferência:
- Baixa a imagem | https://omarchy.org/#install
- Usa um programinha chamado Balena para passar a imagem pro pendrive
- Tem que remover umas travas de segurança ao ligar o computador. Vou deixar o print do claudinho me explicando

Com isso, você inicia a instalação e segue o passo a passo de configuração (como um pc normal: idioma, teclado).

E o risco de entregar as chaves para o agente
A instalação limpa (sem nenhum dado prévio seu) não significa risco zero. A partir do momento em que você conecta contas (google, openai, …), guarda credenciais ou dá acesso a outros arquivos e discos, há coisas importantes ao alcance do agente. Então, aprecie com moderação ou.. viva o extraordinário 😁
O manual do Omarchy trata a personalização com IA como experimental e recomenda entender as mudanças antes de executá-las, com disposição para reverter se der errado.
No meu caso, começar com pouca coisa ali tornou a experiência mais confortável. É bem diferente de entregar de uma vez o computador inteiro com todos os arquivos de trabalho.
E uma distinção importante no “de graça”: o Omarchy pode ser baixado e usado gratuitamente; o acesso ao agente e aos modelos segue as condições do serviço escolhido. Instalar o sistema não inclui uma assinatura de IA.
Ainda estou no começo
Este é um relato de primeiras impressões. O teste de verdade vai ser trabalhar nele: abrir os programas de que preciso, usar por várias horas, fechar a tampa, voltar no dia seguinte e continuar. Ainda quero ver quanto da minha rotina cabe neste meu teste com linux e enquanto isso sigo usando Windows em outros devices.
Estou animado. Tem sido uma jornada bem massa, agradável e cheia de coisa legal para descobrir.
Talvez minha maior sugestão para a grande maioria: se tiver um pc extra em casa.. vale demais testar. Só não esqueça: o modo de instalação que ocupa o disco inteiro apaga o disco escolhido. Então, é óbvio, mas reforçando: backup e identificação do SSD vêm antes da aventura.
No fim, o comentário do Threads estava meio certo: a IA não foi o motivo da mudança. Foi o que tornou a mudança viável.
E já me deu vontade de abrir de novo um notebook que estava me dando preguiça.